Diversidade em Debate!!!
segunda-feira, 5 de novembro de 2012
sábado, 20 de agosto de 2011
Será Deus Homofóbico?
Por: Maria Berenice Dias*
Recente pesquisa do Ibope revelou que mais da metade dos entrevistados se manifestaram contrários ao direito de homossexuais constituírem uma família. Não foi revelada – e por certo não foi perguntada – a orientação sexual dos pesquisados. Mas caberia. Aliás, a pesquisa, para ter maior legitimidade, deveria ser feita somente entre a população LGBT. Afinal, é a ela que diz respeito!
Qual a justificativa para perguntar a alguém qual o direito do outro? Quem poderia falar, com mais propriedade, sobre o desejo de casar, de ser professor, médico ou policial? Um dado consolador é que os jovens, as pessoas com melhor nível de escolaridade e maior poder aquisitivo se mostraram mais tolerantes. Pelo jeito este é o caminho. Educação. Só ela permite melhor renda e mais condições sociais.
Talvez o resultado mais surpreendente seja o quesito que identifica a religião dos pesquisados. Os mais intransigentes são os quem se dizem evangélicos ou protestantes, seguidos pelos católicos e os adeptos de outras crenças e credos.
De qualquer modo, das religiões que existem, não deve haver nenhuma que não pregue o amor ao próximo. As mais próximas, por terem sido trazidas com a colonização, acreditam em um Deus que veio à Terra encarnado na pessoa do próprio filho. Jesus Cristo desde menino exercitou a tolerância. Em nenhuma de suas pregações incitou o ódio ao semelhante ou negou a alguém o direito de subir ao reino do céu. Basta lembrar que impediu que Madalena fosse apedrejada, multiplicou pães para dar de comer a quem tinha fome e morreu na cruz para salvar toda a humanidade.
Assim, cabe questionar qual a justificativa de evangélicos, protestantes e católicos se posicionarem de modo tão assustadoramente preconceituoso contra quem tem orientação sexual diversa da maioria, mas não significa alguma ameaça e nem causa mal a ninguém.
Afinal, o que querem lésbicas, gays, bissexuais, transexuais e travestis são os direitos mais elementares: direito à cidadania, à inclusão social. Direito de terem sua integridade física resguardada. Para isso é indispensável a garantia de acesso ao trabalho, para exercerem a profissão que lhes aprouver. Também precisam que lhes seja assegurado o direito de constituírem família, terem filhos. Enfim, eles, como todos as pessoas querem somente o direito de ser felizes.
Mas o que se vê nos meios de comunicação, em face do chocante número de concessões a segmentos religiosos, é a instigação sistemática e reiterada ao preconceito e à discriminação. As caminhadas e marchas que proliferam, ao invés de pregarem o amor ao Deus que professam, nada mais fazem do que incitar o ódio a um determinado segmento da população.
A tudo isso a sociedade se mantém indiferente. Como o legislador se omite, vem o Judiciário fazendo justiça e o Executivo criando alguns mecanismos protetivos.
Ainda assim, não há justificativa para tamanha rejeição. Não se atina a origem de tanta perseguição. Ao certo não pode ser a suposta incapacidade de procriar. Este óbice, aliás, nem mais existe, quer com o advento de modernas técnicas de reprodução assistida, quer pela disposição dos casais homoafetivos de adotarem crianças cujos pais não souberem amar ao ponto de protegê-las.
Deste modo, cabe perguntar: Quem disse aos pregadores, padres e pastores que é pecado amar o seu igual? Quem lhes outorgou a missão de banir a diversidade sexual da face da Terra?
Será que Deus é homofóbico?
* Advogada, desembargadora aposentada do TJ-RS, presidenta da Comissão da Diversidade Sexual da OAB e conselheira do CDES.
domingo, 7 de agosto de 2011
Bolsonaro e as calcinhas
Por: Débora Diniz*
O deputado federal Jair Bolsonaro (PP-RJ) foi convidado para ser garoto-propaganda da Duloren, empresa especializada em roupas íntimas. Bolsonaro não é nenhum deus grego que inspire mulheres a comprar calcinhas. Não é seu corpo que importa à Duloren, mas suas opiniões sobre sexo, gays e mulheres. A atual campanha da Duloren de moda para homens no site da empresa traz a imagem de um desses modelos perfeitos sendo admirado por um pit bull. O slogan da campanha é "perigoso, viril e arrebatador". Minha dúvida foi se a chamada era para o cachorro ou para o modelo. O cachorro e o modelo estão de cueca, a diferença é que o cachorro a usa entre os dentes. Imaginei a atualização da campanha com Bolsonaro como modelo para a venda de calcinhas. Com o slogan "machão, conservador, homofóbico", Bolsonaro ocuparia bem o lugar do pit bull.
O que fez a Duloren imaginar que Bolsonaro inspiraria as mulheres a comprar calcinhas? Apostar na ironia seria o caminho confortável e menos controverso, mas também pouco provável para uma empresa que se rege pelo lucro. Bolsonaro não seria um modelo, mas um contramodelo para a intimidade feminina. Ao comprar uma calcinha aprovada por ele, as mulheres negariam os valores subliminares da campanha. Bolsonaro não seria o censor que se imagina ser, mas uma paródia de seu colega Tiririca no campo da sexualidade feminina: o humor sexual moveria o comércio das calcinhas. Acho pouco provável uma aposta de risco como essa. Uma campanha de sucesso é aquela cuja mensagem não deixa dúvida sobre sua eficácia, semelhante à promovida pela Duloren que envolvia um padre e uma modelo com roupas íntimas, ambientada na Praça de São Pedro. A modelo segurava uma cruz em direção ao padre, sugerindo que a lingerie provocaria o espírito libidinoso dos padres. Não havia dúvidas quanta à mensagem dessa campanha, o que deixou a Igreja Católica justamente indignada.
Minha aposta sobre o sentido da campanha é outra. Não há subliminaridades em Bolsonaro como garoto-propaganda, assim como no uso da cruz e do padre na campanha anterior. A Duloren aposta no símbolo do machão como o de um bom vendedor de calcinhas, assim como apostou no modelo perfeito e no pit bull para vender cuecas para homens. É o sentido do machão na cultura brasileira que será negociado pela campanha. Gostar de mulheres e, mais ainda, de mulheres lindas vestindo calcinhas sedutoras, seria um ato de masculinidade. Para admirar mulheres na intimidade, somente homens machões. Mas machão aqui não se resume à ordem heterossexual do desejo - confunde-se com a homofobia, a opressão de gênero e a redução das mulheres a objeto de posse dos homens. O machão censor da sexualidade e do corpo das mulheres está em baixa e a Lei Maria da Penha é um sinal vigoroso da sociedade brasileira sobre essa mudança de mentalidade e práticas de gênero.
Não sei se Bolsonaro ajudará a Duloren a vender calcinhas, mas a Duloren o ajudará a se manter como o deputado federal censor da sexualidade. Afirmar-se como machão e defensor da heteronormatividade faz os parlamentares se projetarem, nem que seja pelo espanto medieval. O sinal mais recente dessa atualização do machão foi a aprovação da lei para a criação do Dia do Orgulho Heterossexual pela Câmara Municipal de São Paulo. Foram 31 votos pela aprovação contra 19, com forte hegemonia dos partidos conservadores na defesa da lei. Assim como na campanha da Duloren, há várias incongruências na lei, sendo a mais importante a inversão da ordem moral - quem é discriminado é o gay, e não o heterossexual. Não se mata um casal heterossexual na rua, mas se violentam pai e filho que expressam carinho em público. A homofobia mata, mas é a heteronormatividade que define as leis e, como gorjeta, pode ajudar o capitalismo a vender calcinhas.
* DEBORA DINIZ É ANTROPÓLOGA, PROFESSORA DA UnB E PESQUISADORA DA ANIS - INSTITUTO DE BIOÉTICA, DIREITOS HUMANOS E GÊNERO
Retirado do Estadão
quinta-feira, 4 de agosto de 2011
"Nada contra, mas…"
Por: Matheus Pichonelli
Existem várias maneiras de se esconder o preconceito num discurso aparentemente amigável às minorias no Brasil. Uma delas é quando a discussão, no bar, nas escolas ou nos fóruns eletrônicos da internet tem início com uma espécie de vacina contra uma possível blitz politicamente correta: “não tenho nada contra essas pessoas, mas…”
É um tipo único de salvo-conduto que dá ao interlocutor o direito de desferir as maiores barbaridades a partir da palavra “mas”. Algumas dessas barbaridades são invisíveis a olhos nus. Escondem-se, geralmente, em argumentos que, no limite, apelam para a necessidade de se respeitar para ser respeitado; ou de se rejeitar “privilégios” para se reivindicar tratamento igualitário. Via de regra, os mesmos argumentos descambam para a fratura mal escancarada do mais autêntico discurso discriminatório: “eles mesmos têm preconceito contra eles”.
Todas essas armadilhas estão pulverizadas, de uma forma ou outra, no argumento do vereador Carlos Apolinário (DEM-SP) ao defender o projeto de sua autoria que institui o Dia do Orgulho Heterossexual na capital paulista. O vereador, que garante ter amigos homossexuais, diz ver como “absurda” a extensão de privilégios a um grupo que sai às ruas uma vez por ano afirmar que não tem vergonha de ser gay. Também diz serem inaceitáveis as regras criadas, ao longo dos últimos anos, para proteger a comunidade gay de uma violência diariamente noticiada nas páginas policiais. Apolinário se diz revoltado por não poder xingar um gay na rua sem correr o risco de ser preso. E também por ver leis criadas para beneficiar conjugues homossexuais como dependentes, por exemplo, de planos de saúde.
Em todos esses casos, o argumento é um só: os gays se acomodaram num colchão de direitos e se tornaram uma espécie de casta privilegiada, adepta à vitimização sem causa e que anda em grupo pelo simples gosto de não se misturar.
No dia seguinte à entrevista, o que mais ouvi de amigos e até familiares foi que o vereador tinha lá certa razão. Um exemplo que ouvi foi que, assim como os gays, as mulheres se contradizem ao pedir condições iguais de tratamento quando já contam até mesmo com delegacias especializadas e leis como a Maria da Penha. Como se o saldo da violência doméstica entre os homens de olho roxo fosse o mesmo de mulheres que, até ontem, evitavam denunciar a agressão masculina em delegacias tomadas por policiais homens que, não raro, legitimavam a ação em nome da “honra” do agressor. E mandavam as mulheres para casa lamentando que a surra havia sido pouca.
Diferentemente do que prega o vereador, quando grupos de orgulho LGBT saem às ruas não estão apenas em busca de festa. Estão dizendo que, diferentemente de outros tempos, não têm mais vergonha da sexualidade nem querem passar o resto da vida trancados no quarto, com medo da reação de amigos e familiares. Demonstram, sobretudo, que estão unidos na pretensão de um dia serem tratados definitivamente como iguais. O que, em pleno 2011, ainda parece longe de acontecer.
Não parece privilégio, por exemplo, querer trabalhar sem que qualquer mérito ou erro seja atribuído à orientação sexual. Um exemplo simples: não faz muito tempo, um jogador de um grande clube paulista era privado de ter seu nome cantado pela torcida simplesmente por supostamente ser gay. Quando fazia gol, ouvia-se pelas arquibancadas: “acertou, mas é gay”. Quando errava, o que se ouvia era: “errou, porque é gay”. Os mesmos “mas” e “porque” se repetem, todos os dias, de todos os meses, de todos os anos, em escolas, repartições, filas, espaço público, cinema ou nas divisões das Forças Armadas.
Pode não ser a intenção do vereador, sempre simpático no tratamento dispensado a jornalistas e que tanto apreço manifesta ao seu cabelereiro gay. Mas, ao ignorar a lógica da discriminação ainda reinante e reduzir a discussão à pregação de que é necessário “tratar como iguais os desiguais”, Apolinário e seus seguidores apenas escancaram a porta de entrada para a legitimação de um verdadeiro massacre que tantas vezes extrapolam as piadas em mesas de bar e se incorporam em perseguição, patrulhamento e agressão.
Retirado de Carta na Escola
E-book "Sexualidade e Política na América Latina: histórias, interseções e paradoxos"
É com muita satisfação que compartilhamos com vocês o e-book Sexualidade e Política na América Latina: histórias, interseções e paradoxos, reunindo textos panorâmicos, trabalhos dos painéis e sínteses das reflexões dos/as comentaristas apresentadas durante o Diálogo Latino-americano sobre Sexualidade e Geopolítica, realizado pelo Observatório de Sexualidade e Política, no Rio de Janeiro, entre 24 e 26 de agosto de 2009.
A publicação eletrônica apresenta conteúdos em português e espanhol, conforme o idioma originalmente usado pelos/as pesquisadores/as participantes do Diálogo Latino-americano, que fez parte da série de três debates regionais sobre sexualidade e geopolítica realizados também na Ásia (Hanói, Vietnã, março de 2009) e na África (Lagos, Nigéria, outubro de 2010).
Um dos objetivos do Diálogo Latino-americano sobre Sexualidade e Geopolítica foi reunir pesquisadoras/es, acadêmicos/as e ativistas para discutirem os desafios das políticas regionais contemporâneas em termos de sexualidade, direitos humanos, ciência e religiões. A partir destas temáticas, o Diálogo Latino-americano foi composto pelas seguintes sessões: Sexualidade, estado e processos políticos; Ciência e política sexual; Sexualidade e economia: visibilidades e vícios; e Religião e política sexual.
Um dos objetivos do Diálogo Latino-americano sobre Sexualidade e Geopolítica foi reunir pesquisadoras/es, acadêmicos/as e ativistas para discutirem os desafios das políticas regionais contemporâneas em termos de sexualidade, direitos humanos, ciência e religiões. A partir destas temáticas, o Diálogo Latino-americano foi composto pelas seguintes sessões: Sexualidade, estado e processos políticos; Ciência e política sexual; Sexualidade e economia: visibilidades e vícios; e Religião e política sexual.
Contamos com a colaboração de vocês para disseminarem esta publicação entre seus contatos e redes!
E-book completo, clique aqui.
Sonia Corrêa e Richard Parker
Sexuality Policy Watch Secretariat/Secretariado do Observatório de Sexualidade e Política
ABIA - Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids
Sexuality Policy Watch Secretariat/Secretariado do Observatório de Sexualidade e Política
ABIA - Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids
domingo, 31 de julho de 2011
Casal transgênero engravida e dá à luz um menino nos EUA
Quando o pequeno Dante tiver crescido o suficiente, seus pais sentarão com ele para explicar que "Mamãe não podia ter filhos, então o papai fez isso por ela".
A explicação para isso se deve ao fato deste lindo bebê de 22 meses de idade ter nascido em uma das mais incríveis famílias do mundo. Sua mãe, Emily, de 28 anos, nasceu menino. E seu pai, Cai, de 24, nasceu menina.
Os médicos duvidavam que tal façanha pudesse acontecer, e até mesmo Emily pensava assim, por achar que era estéril.
- Nós não planejamos ter um bebê assim - disse Emily. - Nós estávamos, na verdade, pensando em adotar, já que, até onde sabíamos, ter nosso próprio bebê seria impossível separadamente, menos ainda juntos. Como isso foi acontecer é um mistério, mas estamos agradecidos por esse milagre. Acredito que quando duas pessoas se amam muito, então coisas especiais podem acontecer.
Foi uma história de amor à primeira vista. Nem haviam se submetido, ainda, às cirurgias de troca de sexo, mas já viviam como o gênero oposto, compreendendo verdadeiramente um ao outro.
- Ser transgênero é um sofrimento, e não algo que você vive como uma fantasia. Então, conheci Cai e foi fantástico. Eu achava que essas coisas só acontecessem em contos de fadas - contou Emily, que está aguardando para fazer a cirurgia que irá remover seus órgãos masculinos.
O casal já não utilizava mais proteção para o ato sexual, mas acreditavam que não haveria risco de gravidez, porque Cai tomava doses altas de hormônio masculino, além de injeções para controle de natalidade. "Então, eu estava com sete meses de gravidez e não sabia. Não sentia o bebê se mexer dentro de mim", disse Cai.
- Eu estava resignada com a ideia de que nunca seria capaz de ter um filho biológico - disse Emily. Ela, que nasceu como menino, chamado Scott, fez poucos meses antes do nascimento a cirurgia para troca de sexo. - Nós adoramos nosso filho. Ele trouxe muita alegria para nós. Ele é perfeitamente saudável de todas as maneiras.
O casal, que vive numa área rural da Pensilvânioa, EUA, agora virou sensação na TV. Eles garantem que Dante vai crescer sem segredos. "Vamos explicar a situação, que não houve nada de errado nem que ele é diferente. Nós vamos dizer que mamãe não podia ter filhos, então papai fez isso por ela".
Fonte: Extra online, do site The Mirror
quinta-feira, 28 de julho de 2011
sábado, 2 de julho de 2011
Passeatas diferentes
Por Contardo Calligaris para Folha
DOMINGO PASSADO, em São Paulo, foi o dia da Parada Gay.
Alguns criticam o caráter carnavalesco e caricatural do evento. Alexandre Vidal Porto, em artigo na Folha do próprio domingo, escreveu que, na luta pela aceitação pública, "é mais estratégico exibir a semelhança" do que as diferenças, pois a conduta e a aparência "ultrajantes" podem ter "efeito negativo" sobre o processo político que leva à igualdade dos homossexuais. Conclusão: "O papel da Parada é mostrar que os homossexuais são seres humanos comuns, que têm direito a proteção e respeito, como qualquer outro cidadão".
Entendo e discordo. Para ter proteção e respeito, nenhum cidadão deveria ser forçado a mostrar conformidade aos ideais estéticos, sexuais e religiosos dominantes. Se você precisa parecer "comum" para que seus direitos sejam respeitados, é que você está sendo discriminado: você não será estigmatizado, mas só à condição que você camufle sua diferença.
Importa, portanto, proteger os direitos dos que não são e não topam ser "comuns", aqueles cujos comportamentos "caricaturais" testam os limites da aceitação social.
Nos últimos anos, mundo afora, as Paradas Gays ganharam a adesão de milhões de heterossexuais porque elas são o protótipo da manifestação libertária: pessoas desfilando por sua própria liberdade, sem concessões estratégicas. É essa visão que atrai, suponho, as famílias que adotam a Parada Gay como programa de domingo. A "complicação" de ter que explicar às crianças a razão de homens se esfregarem meio pelados ou de mulheres se beijarem na boca é largamente compensada pela lição cívica: com o direito deles à diferença, o que está sendo reafirmado é o direito à diferença de cada um de nós.
O mesmo vale para a Marcha para Jesus, que foi na última quinta (23), também em São Paulo. Para muitos que desfilaram, imagino que a passeata por Jesus tenha sido um momento de afirmação positiva de seus valores e de seu estilo de vida -ou seja, um desfile para dizer a vontade de amar e seguir Cristo, inclusive de maneira caricatural, se assim alguém quiser.
Ora, segundo alguns líderes evangélicos, os manifestantes de quinta-feira não saíram à rua para celebrar sua própria liberdade, mas para criticar as recentes decisões pelas quais o STF reconheceu a união estável de casais homossexuais e autorizou as marchas pela liberação da maconha. Ou seja, segundo os líderes, a marcha não foi por Jesus, mas contra homossexuais e libertários.
Pois é, existem três categorias de manifestações: 1) as mais generosas, que pedem liberdade para todos e sobretudo para os que, mesmo distantes e diferentes de nós, estão sendo oprimidos; 2) aquelas em que as pessoas pedem liberdade para si mesmas; 3) aquelas em que as pessoas pedem repressão para os outros.
O que faz que alguém desfile pelas ruas para pedir não liberdade para si mesmo, mas repressão para os outros?
O entendimento trivial desse comportamento é o seguinte: em regra, para combater um desejo meu e para não admitir que ele é meu, eu passo a reprimi-lo nos outros.
Seria simplório concluir que os que pedem repressão da homossexualidade sejam todos homossexuais enrustidos. A regra indica sobretudo a existência desta dinâmica geral: quanto menos eu me autorizo a desejar, tanto mais fico a fim de reprimir o desejo dos outros. Explico.
Digamos que eu seja namorado, corintiano, filho, pai, paulista, marxista e cristão; cada uma dessas identidades pode enriquecer minha vida, abrindo portas e janelas novas para o mundo, permitindo e autorizando sonhos e atos impensáveis sem ela. Mas é igualmente possível, embora menos alegre, abraçar qualquer identidade não pelo que ela permite, mas por tudo o que ela impede.
Exemplo: sou marido para melhor amar a mulher que escolhi ou sou marido para me impedir de olhar para outras? Não é apenas uma opção retórica: quem vai pelo segundo caminho se define e se realiza na repressão -de seu próprio desejo e, por consequência, do desejo dos outros. Para se forçar a ser monogâmico, ele pedirá apedrejamento para os adúlteros: reprimirá os outros, para ele mesmo se reprimir. No contexto social certo, ele será soldado de um dos vários exércitos de pequenos funcionários da repressão, que, para entristecer sua própria vida, precisam entristecer a nossa.
Alguns criticam o caráter carnavalesco e caricatural do evento. Alexandre Vidal Porto, em artigo na Folha do próprio domingo, escreveu que, na luta pela aceitação pública, "é mais estratégico exibir a semelhança" do que as diferenças, pois a conduta e a aparência "ultrajantes" podem ter "efeito negativo" sobre o processo político que leva à igualdade dos homossexuais. Conclusão: "O papel da Parada é mostrar que os homossexuais são seres humanos comuns, que têm direito a proteção e respeito, como qualquer outro cidadão".
Entendo e discordo. Para ter proteção e respeito, nenhum cidadão deveria ser forçado a mostrar conformidade aos ideais estéticos, sexuais e religiosos dominantes. Se você precisa parecer "comum" para que seus direitos sejam respeitados, é que você está sendo discriminado: você não será estigmatizado, mas só à condição que você camufle sua diferença.
Importa, portanto, proteger os direitos dos que não são e não topam ser "comuns", aqueles cujos comportamentos "caricaturais" testam os limites da aceitação social.
Nos últimos anos, mundo afora, as Paradas Gays ganharam a adesão de milhões de heterossexuais porque elas são o protótipo da manifestação libertária: pessoas desfilando por sua própria liberdade, sem concessões estratégicas. É essa visão que atrai, suponho, as famílias que adotam a Parada Gay como programa de domingo. A "complicação" de ter que explicar às crianças a razão de homens se esfregarem meio pelados ou de mulheres se beijarem na boca é largamente compensada pela lição cívica: com o direito deles à diferença, o que está sendo reafirmado é o direito à diferença de cada um de nós.
O mesmo vale para a Marcha para Jesus, que foi na última quinta (23), também em São Paulo. Para muitos que desfilaram, imagino que a passeata por Jesus tenha sido um momento de afirmação positiva de seus valores e de seu estilo de vida -ou seja, um desfile para dizer a vontade de amar e seguir Cristo, inclusive de maneira caricatural, se assim alguém quiser.
Ora, segundo alguns líderes evangélicos, os manifestantes de quinta-feira não saíram à rua para celebrar sua própria liberdade, mas para criticar as recentes decisões pelas quais o STF reconheceu a união estável de casais homossexuais e autorizou as marchas pela liberação da maconha. Ou seja, segundo os líderes, a marcha não foi por Jesus, mas contra homossexuais e libertários.
Pois é, existem três categorias de manifestações: 1) as mais generosas, que pedem liberdade para todos e sobretudo para os que, mesmo distantes e diferentes de nós, estão sendo oprimidos; 2) aquelas em que as pessoas pedem liberdade para si mesmas; 3) aquelas em que as pessoas pedem repressão para os outros.
O que faz que alguém desfile pelas ruas para pedir não liberdade para si mesmo, mas repressão para os outros?
O entendimento trivial desse comportamento é o seguinte: em regra, para combater um desejo meu e para não admitir que ele é meu, eu passo a reprimi-lo nos outros.
Seria simplório concluir que os que pedem repressão da homossexualidade sejam todos homossexuais enrustidos. A regra indica sobretudo a existência desta dinâmica geral: quanto menos eu me autorizo a desejar, tanto mais fico a fim de reprimir o desejo dos outros. Explico.
Digamos que eu seja namorado, corintiano, filho, pai, paulista, marxista e cristão; cada uma dessas identidades pode enriquecer minha vida, abrindo portas e janelas novas para o mundo, permitindo e autorizando sonhos e atos impensáveis sem ela. Mas é igualmente possível, embora menos alegre, abraçar qualquer identidade não pelo que ela permite, mas por tudo o que ela impede.
Exemplo: sou marido para melhor amar a mulher que escolhi ou sou marido para me impedir de olhar para outras? Não é apenas uma opção retórica: quem vai pelo segundo caminho se define e se realiza na repressão -de seu próprio desejo e, por consequência, do desejo dos outros. Para se forçar a ser monogâmico, ele pedirá apedrejamento para os adúlteros: reprimirá os outros, para ele mesmo se reprimir. No contexto social certo, ele será soldado de um dos vários exércitos de pequenos funcionários da repressão, que, para entristecer sua própria vida, precisam entristecer a nossa.
domingo, 26 de junho de 2011
Evangélicos vão à Parada Gay para tirar homossexuais do 'mau caminho'
Com panfletos e pregações, um grupo de quatro evangélicos batistas de Santo André (SP) resolveu ir à Parada Gay para tentar livrar os homossexuais de uma vida de “sexo livre”, “prazeres vazios” e “vícios” e encaminhá-los ao que chamam do caminho correto indicado por Jesus, longe da homossexualidade.
“Aqui é um momento de diversão passageira, vazia. É uma alegria repleta de vícios, bebida e sexo livre. Depois que passa tudo isso, o que fica? A frustração. A verdadeira alegria é Jesus”, disse Ivo Navarro, 44. “Eu buscava aquilo, mas quando descobri Jesus vi que a vida não é isso”, afirmou, em tom de pregação.
Navarro disse concordar com a avaliação de lideranças evangélicas, como o pastor pentecostal Silas Malafaia, que vê na homossexualidade sintoma de atuação do satanás. “Eu acho que é [coisa do diabo]. Eu vejo como uma escolha, mas se você ler a palavra de Deus ele não aceita a homossexualidade”, disse.
O batista também é contra a união entre pessoas do mesmo sexo. “Não sou a favor. Você tem útero, vagina? Deus te fez homem. Você deve se aceitar assim”, acrescentou, apontando para uma colega do grupo que diz ter abandonado o lesbianismo após o contato com a igreja.
“Tinha 20 anos e só me relacionava com mulheres. Daí me encontrei com Deus. Foi de repente. A vida que eu estava levando era vazia. Tive um sonho que abriu meus olhos”, conta a jovem, que não quis se identifica, sobre o processo que o levou a abandonar a homossexualidade.
Ela conta que teve vários relacionamentos com mulheres , mas o único duradouro foi o último, de um ano e meio. “O namoro homossexual sempre dura pouco”, afirmou, recebendo apoio de uma outra integrante do grupo, Maria Grisante, 48, que faz um trabalho de “conversão” de travestis em Santo André.
Navarro, que esteve na Marcha para Jesus na última quinta-feira, disse que recebeu algumas provocações durante a parada, mas que não pretende desistir. Durante uma panfletagem, ele conta que só teve o seu panfleto aceito após aceitar receber uma camisinha da outra pessoa. “Vou guardar, não vou usar”, disse.
Fonte: Notícias Uol
sábado, 25 de junho de 2011
Senado de Nova York aprova o casamento gay
População comemora em Nova York a aprovação do casamento gay pelo Senado na noite desta sexta-feira (24). (Foto: Jessica Rinaldi/Reuters)
O Senado de Nova York aprovou na noite desta sexta-feira (24) o casamento entre pessoas do mesmo sexo no Estado, em uma histórica votação ao final de intenso debate sobre o tema.
A chamada "Lei de Igualdade Matrimonial" (Marriage Equality Act) foi aprovada por 33 votos contra 29, após uma série de modificações no projeto original. O texto apresentado pelo governador Andrew Cuomo já havia passado na Câmara no dia 14 de junho.
Logo após a aprovação da lei, a comunidade gay iniciou a festa nos bairros de East Village e West Village, em Manhattan, revelou a TV local.
Com a decisão, Nova York se une aos estados de Iowa, New Hapmshire, Massachusetts, Connecticut e Vermont, e ao Distrito de Columbia (Washington DC) na permissão do casamento entre pessoas do mesmo sexo.
* Com informações da FP e da EFE
sexta-feira, 24 de junho de 2011
Eletrodoméstica
Essencialmente, um filme sobre sexo, controle e prazer no Brasil dos anos 90. Eu escrevi o roteiro em 1994, e o filme foi feito em 2004, em 35mm.
Sinopse: Classe Média. Brazil, anos 90. A 220 volts.
Por: Kleber Mendonça Filho
Bispo diz que estupro só é possível com o consentimento da mulher
"Vamos admitir até que a mulher tenha sido violentada, que foi vítima... É muito difícil uma violência sem o consentimento da mulher, é difícil", comenta. O bispo ajeita os cabelos e o crucifixo. "Já vi muitos casos que não posso citar aqui. Tenho 52 anos de padre... Há os casos em que não é bem violência... [A mulher diz] 'Não queria, não queria, mas aconteceu...'", diz. "Então sabe o que eu fazia?" Nesse momento, o bispo pega a tampa da caneta da repórter e mostra como conversava com mulheres. "Eu falava: bota aqui", pedindo, em seguida, para a repórter encaixar o cilindro da caneta no orifício da tampa. O bispo começa a mexer a mão, evitando o encaixe. "Entendeu, né? Tem casos assim., do 'ah, não queria, não queria, mas acabei deixando'. O BO é para não facilitar o aborto", diz.
A posição do bíspo é um uma tentativa de dificultar o aborto nas cidades da grande São Paulo.
O bíspo Luiz Gonzaga é um claro exemplo da mistura de politica com religião, e usa de sua influência em fiéis para mudar votos e opiniões da massa. Como foi o caso de seu discurso contra a presidenta Dilma, em que ele fez "pregações" contra as intenções da candidata e espalhou folhetos por várias igrejas. Ato que resultou na derrota do PT na cidade de Guarulhos.
A posição do bíspo é um uma tentativa de dificultar o aborto nas cidades da grande São Paulo.
O bíspo Luiz Gonzaga é um claro exemplo da mistura de politica com religião, e usa de sua influência em fiéis para mudar votos e opiniões da massa. Como foi o caso de seu discurso contra a presidenta Dilma, em que ele fez "pregações" contra as intenções da candidata e espalhou folhetos por várias igrejas. Ato que resultou na derrota do PT na cidade de Guarulhos.
quinta-feira, 23 de junho de 2011
quarta-feira, 15 de junho de 2011
Adolescente gay é brutalmente assassinado em Natal; suspeitos estão presos - Ataques homofóbicos em Política no A Capa
Na madrugada do último dia 29, Caio Lhennyson da Silva Costa, 18, voltava de uma festa quando foi abordado por três sujeitos que o torturaram, estupraram e estrangularam. Na manhã da última sexta-feira (3), a Polícia Civil de São Gonçalo do Amarante (RN) anunciou a prisão dos três suspeitos de terem cometido o crime: dois foram identificados como Biro Biro e Negão. O terceiro elemento é menor de idade.
Os policiais declararam que ficaram chocados com os requintes de crueldade e disseram acreditar que o crime pode ter sido motivado por homofobia. Caio vivia na Zona Norte de Natal e voltava de uma casa de shows na madrugada em que foi assassinado. O delegado do caso, Adson Maia, revelou que os suspeitos estavam coagindo as testemunhas para que não passassem informações à polícia. Por conta disso, Maia disse que pode autuá-los em flagrante.
O delegado também revelou que os assassinos são vizinhos das vítima e que na madrugada em que Caio voltava para casa estavam reunidos. O corpo do jovem foi encontrado em um terreno perto de sua casa. O garoto estava desfigurado e a sua boca cheia de areia.
"Fizeram por maldade. Ainda não sei se foi motivado por homofobia, mas isso pode ter contribuído para a violência contra o Caio", declarou o delegado.
Por: Revista ACapa
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